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O que NÃO aprender com o discurso de Bolsonaro na ONU: uma análise de comunicação.

O Presidente Jair Bolsonaro abriu a Assembléia Geral da ONU, ontem, sem surpreender.

Do ponto de vista de comunicação pessoal, mais uma vez se mostrou tenso e deixou de aproveitar as habilidades de comunicação para se conectar com a plateia.

Se você se apresenta em público e quer usar melhor o seu potencial para se destacar, acompanhe comigo 5 orientações a seguir:

1. Uso do teleprompter:
Com o teleprompter ou TP, o telespectador (se for uma transmissão para tv) ou o espectador (se for evento presencial) pensam que o orador olha pra ele, mas na verdade ele olha para o vidro que faz o papel de espelho e reflete o texto, projetado numa tela (monitor de computador).

No evento da ONU, em Nova York, dois TPs estavam posicionados à frente do presidente que se mostrou inábil para uma leitura fluida e interessante, como em outros eventos. O equipamento é um disfarce para permitir que o orador interaja com a plateia por meio do contato visual. Entretanto, sem tirar os olhos das telas, o presidente brasileiro fez uma leitura ‘dura’, com um compasso linear, sem mostrar naturalidade.

A falta dos óculos fez com que ele apertasse os olhos para tentar enxergar o texto. Não há problema algum em usar óculos ou lentes de contato. A impressão transmitida é de desconforto, dificuldade e falta de habilidade e isso contribuiu para um nível baixo de credibilidade.

DICA 1: Se souber que vai usar o TP, treine o texto antes. Quanto mais familiarizado você estiver com o conteúdo, mais fluência vai conseguir. Procure dividir a atenção entre a leitura no TP e a plateia para se conectar. O objetivo não pode ser só o de ler, é fundamental se conectar com os espectadores.

2. Fluência
A leitura ‘dura’ citada acima não tem relação com o uso do TP. Mesmo sem o equipamento, o Presidente tem mostrado falta de habilidade em ler um texto sem parecer que esteja lendo. Se engana quem pensa que isso só pode ser desenvolvido por atores ou apresentadores de televisão. O treino é a solução, afinal a gente só fica bom naquilo que pratica.

Sessões de fonoaudiologia também são fundamentais para quem não pronuncia corretamente as palavras. Em alguns casos, a pressa de falar palavras grandes atropelam as sílabas e não facilitam o entendimento. Na leitura de Bolsonaro ele atropelou a palavra ‘produtividade’. Em outros momentos, ele fala mais devagar para evitar o atropelo e acaba acentuando demais termos que não mereciam destaque.

DICA 2: Treine a leitura, respeite a pontuação e pratique a pronúncia correta das palavras para ganhar mais atenção da plateia.

3. Gesticulação
Atrás de um púlpito, com os pés fixos no chão como deve ser, a gesticulação pode ficar mais discreta. E isso não é ruim, desde que a alternância de tom da fala compense a falta de gestos. O movimento que o Bolsonaro mais faz é o pendular, em que se mexe lateralmente mudando o apoio de um pé para o outro. É como se estivesse balançando dentro de um barco.

DICA 3: Mantenha os pés fixos no chão e não flexione os joelhos. Explore os movimentos de mãos e braços, mas evite ampliar a gesticulação para não correr o risco de invadir a área do rosto. Cuidado para não bater a mão, relógio ou acessórios e nem a caneta sobre o púlpito, balcão do estúdio ou mesa de reunião. O ruído provocado pode chamar a atenção indevida da plateia.

4. Fale da sua marca e não do outro
O Presidente abriu o discurso na ONU falando de Cuba e Venezuela. Críticas duras ao sistema de governo desses países ganharam os 5 primeiros minutos de Bolsonaro em vez de aproveitar o espaço para falar do Novo Brasil, termo que usou somente nos últimos segundos de sua fala para valorizar as ações que tem feito ou pretende fazer para retomar a credibilidade do país. Não se constrói credibilidade falando mal de outro, mesmo que as críticas sejam válidas e verdadeiras. Além disso, quem muito atira vira vidraça.

5. Construa argumentos sólidos
Ao citar a frase ‘o Brasil é um dos países que mais protege o meio ambiente’, logo no início do discurso, Bolsonaro falhou por não oferecer dados que validam a fala. Somente no final ele citou que 61% da área da Amazônia brasileira estão protegidos, mas não explicou como. Afirmativas imprecisas podem causar impacto positivo em alguns, mas deixam dúvidas em que busca dados que convencem.

Na análise que eu fiz a pedido do Portal UOL, publicada em 24 de setembro, você confere outras observações e a análise do professor Reinaldo Polito, que também participou da matéria. Confira aqui.