Porta-voz, proteja-se usando a linguagem simples

Sempre que preparo alguém para uma entrevista jornalística, cedo ou tarde essa conversa aparece:
“Mas se eu simplificar demais, não empobreço o conteúdo?”

Essa dúvida diz muito sobre como ainda confundimos complexidade com inteligência e linguagem difícil com autoridade. E é justamente aí que mora um dos maiores riscos de quem fala com a imprensa: esquecer que a entrevista não é sobre quem fala, é sobre quem escuta.

Tecniquês não é linguagem profissional. É ruído.

O chamado tecniquês nasce, quase sempre, de um bom lugar. Ele vem do domínio técnico, da intimidade com o assunto, da vivência diária com termos específicos. O problema é que aquilo que é familiar para quem fala pode ser completamente estranho para quem ouve.

Em entrevistas para rádio e TV, esse descompasso se agrava.
O ouvinte não pode “voltar o áudio”.
O telespectador não tem tempo para decodificar uma frase longa, cheia de abstrações, enquanto a vida acontece ao redor.

Quando usamos termos técnicos sem tradução, criamos ruído.
E ruído, em comunicação pública, não é neutro: ele afasta, cansa e desconecta.

Linguagem simples não é superficial. É generosa.

Simplificar não é “falar pouco”, nem “falar raso”.
É fazer um esforço consciente para que o outro compreenda.

Isso exige mais preparo, não menos.
Exige que o porta-voz domine o conteúdo a ponto de conseguir explicá-lo como se estivesse falando com alguém fora da sua bolha profissional.

Sempre digo aos meus mentorados:

se você não consegue explicar algo de forma simples, talvez ainda não tenha entendido esse algo por completo.

A linguagem simples é um exercício de empatia.
Ela nasce da pergunta silenciosa:
quem está me ouvindo agora consegue acompanhar meu raciocínio?

Rádio e TV pedem clareza imediata

Há uma diferença importante entre escrever um relatório técnico e responder a uma pergunta ao vivo.
Na entrevista jornalística, o tempo é curto e a atenção é disputada.

Frases longas, cheias de orações subordinadas, conceitos abstratos e palavras pouco usuais funcionam mal nesse ambiente. Elas exigem um esforço cognitivo que o ouvinte não está disposto (ou não consegue) fazer naquele momento.

A linguagem simples ajuda porque:

  • organiza o pensamento,

  • encurta o caminho entre ideia e compreensão,

  • aumenta a chance de a mensagem ser lembrada.

E, sim, ela também protege o entrevistado, porque reduz o risco de interpretações equivocadas.

Pensar no outro muda tudo

Quando alguém me diz:
“Mas esse termo é o correto tecnicamente”,
costumo responder:
“Talvez. Mas ele é correto para quem está ouvindo?”

Comunicação pública não é prova de conhecimento.
É ato de serviço.

Quem dá entrevista representa uma empresa, uma instituição, um setor inteiro. Falar de forma inacessível não eleva a imagem, pelo contrário, cria distância, gera desconfiança e, muitas vezes, passa uma sensação de arrogância que não corresponde à intenção de quem fala.

Linguagem simples aproxima.
E aproximação, em tempos de desconfiança generalizada, é um ativo valioso.

Uma boa pergunta para levar para a próxima entrevista

Antes de responder ao jornalista, experimente se perguntar internamente:

Se alguém ouvir só essa frase, sem contexto técnico, ela vai entender?

Se a resposta for “talvez”, ainda dá para ajustar.
Trocar uma palavra.
Quebrar uma frase.
Usar um exemplo concreto.

Pequenas escolhas fazem uma grande diferença.

No fim das contas, comunicar bem em uma entrevista jornalística é menos sobre mostrar o quanto se sabe e mais sobre cuidar do entendimento de quem escuta.

E isso, para mim, é uma das formas mais elegantes de exercer autoridade. Concorda?